Ser outro.

foto de SEAN MARC LEE
Existem noites que surgem da distância que tem a solidão efectiva. Um homem que espera é, quase sempre, um homem afortunado, ainda que o não saiba. Ainda que espere o breve instante em que se deparará com a sua própria finitude, saberá antes disso preparar a enorme ceia de que se compuseram todos os auges, todas as despedidas, todas as esperanças goradas e todas as glórias. E isso tudo é muito.
Existem noites em que se diluem as horas, por se não saber o que fazer delas. Mas mesmo aí se costumam abrir portas que dão para estradas muito longínquas e muito diferentes daquelas que ficam em frente da casa e do jardim. Nesse diluir das horas, corre o nosso homem pela ironia do tempo, para chegar ao fim da estrada e achar-se tão perto do primeiro gesto que o fez ter a enganadora e doce impressão de que era um pássaro, um carro veloz durante o verão, ou um homem, um homem qualquer que nunca tivesse sido, que desconhecesse profundamente, e que gostasse dele à primeira vista, como só no amor acontece.


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