Entrar-te nos sonhos.

foto de Abbey Drucker
Pronto. Agora é entrar-te nos sonhos, como quem entra para um autocarro, sem reparar na placa que indica o destino. É encontrar o lugar mais confortável e com melhor vista, o mais arejado e o que menos gente tiver por perto. Entrar-te nos sonhos e esperar encontrar-me com frequência, numa versão mais bonita e muito menos real e esperar ser feliz com essa imagem que cultivas de mim, mesmo quando não me reconhecer ou tropeçar numa irrealidade tão grande que se acerque da mentira.
Pronto. Agora é só não fazer de conta que esse lado irreal que são os teus sonhos não provocam efeitos neste meu lado agendado com o despertador e com o resto do mundo e fruir com outra leveza tudo o que ainda não sei sobre a calmaria das manhãs ou a subtileza das plantas, ou o nadar sempre tão para sempre dos peixes, ainda que de aquário.
Pronto. Estou pronto para acrescentar outro braço ou outra perna a este corpo que é mais do que um corpo e seguir por essas ruas que são mais do que ruas, são cidades invisíveis onde costumo morar e ser feliz. Pronto. É só entrar-te nos sonhos e ficar nesse promontório a originar vertigens e oceanos e esperar acordar muito tarde, como só acontece ao Domingo, quando não há nada para fazer.


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