O TEMPO QUE CORRE.
Na década de 70, morava no então Largo Salazar, hoje, felizmente, Praça 25 de Abril. As pessoas da minha geração, e sobretudo as anteriores, ainda se referem, de quando em vez, a esse local como o Largo. Não como o Largo Salazar, mas simplesmente o Largo. Era e continua a ser a Praça mais larga, o centro da cidade, daí a expressão.
Quando aí morava era muito pequeno. Pelas quatro e meia da tarde, lanchava leite com café e quatro bolachas, duas Maria e as outras duas Torrada. Se acaso ficasse com fome, havia instrução para que se não reforçasse a dose de bolachas, mas antes me fosse dado um pão com manteiga. À época, o pão ainda se conservava estaladiço às quatro e meia da tarde e a manteiga era mais salgada do que é hoje.
Ao contrário de agora, quando era miúdo tinha pouco apetite. E, quando tal se agravava, entravam em ação três remédios de grande eficácia: uma colher de xarope Becozyme forte, dos Laboratórios Roche, um prato de farinha láctea Cérelac e a voz da minha avó a mostrar-me que o meu amigo pardeijinho estava ali à janela para ver se eu comia.
O tempo habitava-se assim e o espanto que isto guarda é que, na verdade, por via do coração e da memória, ainda assim se habita. Quantos pensamentos foram gerados sobre a natureza do tempo? O menos verdadeiro será o cronológico. A mescla de tempos evidencia-se até pelo efeito que provoca no momento presente. O próprio futuro, ou a sua ideia, molda a forma como criamos o instante. Assim como o que passou não passou efetivamente pois, pelas melhores ou piores razões, acompanha-nos e soma de forma impressiva ao que somos e ao que temos para entregar ao que vier e que ainda não sabemos, embora já lhe troquemos as voltas com o que daí imaginamos.
A humanidade tem esta característica, tão complexa quanto bela, de brincar com o tempo. Como as crianças, andamos em redor e corremos sem parar entre dimensões temporais. Daí, dessa correria, se desvenda o que julgamos ser a nossa verdade. Tão ingenuamente acreditamos nela até ao momento em que o tempo nos engana e nos coloca entre vazios e convulsões, como se caíssemos ao chão no meio de um jogo. É o tempo a querer medir forças e nós, conforme a infância nos ensinou, levantamo-nos de novo e começamos uma nova corrida. Corremos, corremos e corremos, até que ele e todas as dores se esqueçam de nós.


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