A luz, a saudade e a liberdade.


Suportável é a luz dos objectos, a segurar o que resta para lá de nós na nossa própria vida. A luz que conta histórias, como contou sempre nos quadros de Edward Hopper, ou nas mais infantis e medonhas histórias da nossa infância, ou das esperas durante a nossa longa e quase infindável adolescência.
Acrescento: a luz dos objectos suporta-nos, além de ser suportável. Esta noite rememoro a luz que incidia sobre as cadeiras castanhas da velha cozinha, da sombra da maceira e do forno a lenha ao canto. Essa luz que vinha da janela que dava para o quintal e que também se reflectia na banca em granito que depois de seca ainda deixava brilhar alguns cristais. A luz sobre os objectos a trazer-me a luz sobre as minhas emoções em tempos longínquos. A permanência da saudade que não dói e que acrescenta.
A saudade e a liberdade caminham muito juntos em mim. É no território da saudade que encontro um dos mais preciosos elementos da liberdade: a intimidade. Não há liberdade que não seja íntima, que não reflicta a nossa marca e o nosso querer sobre o correr dos tempos. Daí estar para aqui a conviver com a luz dos objectos e com o que essa luz fez incidir em mim e como tudo isso, só de o pensar, me deixa feliz e mais livre. Porque ninguém nos rouba a memória, ninguém consegue penetrar nesse magnífico espaço tão nosso, nem regime, nem filiação, nem tão pouco os que amamos e que vão partindo.

Comentários

Mensagens populares