O que se não diz.

O mais inquietante nos humanos é o que resguarda o seu rosto, os seus gestos, a sua postura. Tudo que é óbvio é um desperdício de condição, dado que a condição de viventes é extrema e perversamente curta.
Em todas as histórias, mesmo nas mais longas, o território do indizível ou do subjectivo é o seu maior tesouro. Que seria da arte sem esse espaço? Que seria da sensualidade e do amor? Que seria do mundo?
A margem de liberdade do indizível é a margem de liberdade do universo. A mais pura, a mais duradoura e a mais consequente.
Por isso, mesmo quando objectivamente dizemos coisas como:
-pronto não te suporto mais, vou mudar de vida!
estamos, no fundo, a abrir um promontório de subjectividades em nós e no outro que farão disparar os níveis de livre arbítrio de forma tão profunda e eficaz como das vezes em que dizemos:
-pronto, é infinito o amor que sinto e acho que seremos felizes para sempre.
O que mora no que se não diz é o paraíso e o inferno de cada uma das nossas marcas e isso, objectivamente é um tesouro, se mais não for para que haja o que dizer, por parte dos outros, acerca e depois de nós.


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