Fafe


À medida que vamos perdendo as pessoas e os lugares, vamo-nos tornando mais duros. Temos uma necessidade de sobrevivência cada vez maior, por sentirmos que, a cada instante, pode-nos ser tirado um pedaço de memória, sendo isso um roubo demasiado grande quando se começa a perder o que, efectivamente, é insubstituível.
Fafe, no seu melhor e no seu pior, é a terra que mais amo. E dizer isto é uma banalidade. É como dizer que a mãe ou pai que mais amamos são os nossos. Porém, dizer isto não é inconsequente, porque o facto de sentir assim fez-me sempre pensar que nunca se deve desistir de aplicar à nossa terra os nossos melhores sentimentos e as nossas mais preciosas utopias. E não é por ser pequena ou meia de interior que não está à altura de ter o melhor que queremos para o mundo.
Existe, contudo, uma visão provinciana (termo fascista inventado por alguns) que é fruto daqueles que pensam que, por estarmos aqui, teremos que ser modestamente acomodados na nossa capacidade de sonhar e de concretizar. Felizmente que os tempos mudaram e que há uma geração que quase nem sabe o que isto significa. Felizmente que há fafenses de grande nível espalhados por cá e por todo o mundo. Felizmente e não vaidosamente. Porque é por existirem, cá e lá, desses cidadãos que se tem conseguido estimular a relação que a nossa população mantém com a sua terra, com o seu presente e com o seu passado. Um passado sem ideias balofas e salazarentas de tradições que não existiram efectivamente, mas, antes com a tradição que cada um com os seus foi criando, mais a história que cada um com os seus foi acrescentando aos lugares, o que neles viveu, o que neles deu de si, o que melhorou, o que ambicionou e o que conseguiu fazer com essa mesma ambição. Numa só expressão: o que o amor dos fafenses foi acrescentando a Fafe, assim sintetizando o que de mais sério se pode dizer sobre a nossa terra e do quanto foi válida a entrega de tantos.
São esses lugares de intimidade e de empenho a que mais me apego, sendo parte de mim como o meu próprio corpo. São lugares intangíveis, histórias de pessoas que na miséria de outros tempos tiveram uma generosidade maior que o seu próprio tempo, gargalhadas que ficaram de encontros, festejos de vitórias de futebóis, rostos onde só de os ver aprendi a ternura, o respeito, a alegria, o medo ou a coragem. Lugares intangíveis, feitos de quem acreditou, de quem quis mais de si mesmo e nunca sentiu pequeno o seu lugar.
À medida que vamos perdendo as pessoas e os lugares, diminuímos ao ruído e ao supérfluo e é mais densa e silenciosa a nossa luta, porque a vida também nos vai ensinando dolorosamente aquilo por que vale efectivamente lutar.

Comentários

Anónimo disse…
E Fafe tem sorte em o ter. Comungo das suas reflexões. Só tenho pena de, por acasos da vida, não poder fazer mais pela minha terra. Fafe, para mim, é feminina. É o ventre que me aconchega, é o lugar da segurança materna. Apesar de estar ausente, tenho presente todos os sons, os cheiros e as palavras das pessoas. São estas palavras que nos confortam e que nos sugerem que o nosso lugar é aí.
Obrigado pelo texto.
Anónimo disse…
Fafe mal trata os seus. Há tantos fafenses ilustres por esse mundo fora que nunca mereceram uma palavra de conforto. Fafe é uma terra ingrata. Seria bom que Fafe olhasse em redor e visse o que os fafenses fazem por esse mundo fora.
Anónimo disse…
Um excelente texto rodeado de simbolismo! é isso que guardo de Fafe, terra onde nasci... guardo o bucólico dos campos, a magia da natureza, a simplicidade das brincadeiras...
Mas Fafe tem de ser mais que isso. Vejo Fafe com pouco dinamismo social e cultural patente nas conversas mundanas de cafés. Vejo Fafe a perder as melhores referências de que fala o seu texto e profundamente afastada culturalmente da contemporaniedade.
Vejo uma cidade profundamente provinciana nos hábitos e costumes!!
Anónimo disse…
Concordo no geral com o último comentário (não gosto dos anonimatos). Mas, se percorrer a maior parte das cidades deste país, não encontra o cosmopolitisimo cultural que reivindica para a nossa cidade. Apesar de tudo, há alguma produção cultural. O POmpeu Martins é um bom exemplo de dinamismo nesta área. Mas há outros exemplos. Quanto à dinâmica tertúlica, é uma verdade insofismável que se vai perdendo, mas de uma forma geral. O pensamento cada vez mais se remete para os sítios silenciosos da net. Fafe está a criar um corpo de equipamentos muito interessantes (o caso do cine-teatro e a sua transformação arquitectónica é um bom exemplo)e estou em crer que, por isso, novas dinâmicas e hábitos culturais se irão desenvolver. Agora, o problema é que, desde que me lembro, sempre dissemos que Fafe não possui essa dinâmica e nunca nos lembramos que esse movimento tem de partir de cada um de nós.

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