Poemas




1
Atira-te de um nome
e espraia aí o que ainda não desejas
e o que ainda não sabes desse lugar.

Um nome é um lugar amplo
onde tudo é possível. Por isso, ousa
pronunciá-lo e espera. Espera profundamente
até que consigas aí deixar de ser quem foste,
até que consigas despedir-te e sentir a tua própria falta,
até que consigas anular-te e sentir o teu próprio vazio,
até que consigas voltar a nascer e assumir
que não há nada de novo no mundo
que não tenha vindo de ti e desse encontro.

Até que entendas que a criação de Deus
vem dessa terrena metafísica, dessa eternidade
tão comovente, tão imparável entre os viventes.

2
Os passos e os corpos falam-te da liberdade.
Os passos que arrastaste tempo fora,
fazendo do mundo um corpo rasgado
a teu jeito para a incisão do amor e da beleza.
Os corpos que encontraste
deitaste-os sobre o caminho
e amaste-os com a serena lonjura
de quem não desiste e nunca se despede.
E, assim mesmo, foste o eterno nómada,
tendo para o teu tempo e para o tempo
que foste dando
a resposta ininterrupta do espanto
ou uma canção demorada
no fogo evocativo da memória.

Bruxelas, 16 de Novembro de 2008.

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