A minha cozinha de Vermeer



Do quadro «One night in the Kitchen», de Vermeer, retomo a infância e o tempo em que tinha uma cozinha muito idêntica a esta, com as suas sombras, as suas sonoridades e os seus cheiros.
As sombras da cozinha nasciam da luz que entrava por duas janelas que davam para o quintal e que projectavam no chão de soalho as pernas da mesa que ficava ao centro, onde almoçavam as empregadas e onde se estendia a massa para os rissóis e para os pasteis de carne à moda de Chaves. A mesma mesa onde eu lanchava e daí esperava o pardejo que, segundo a minha avó, me vinha visitar todos os dias para ver se eu comia. Mas as sombras da cozinha eram sombras de uma magia impressionante porque se impunham e entravam pelo meu imaginário dando àquele espaço dimensões e apropriações que só o coração teve acesso e guardou para sempre.
Era uma cozinha enorme, com um forno a lenha na parede ao fundo e um fogão em ferro onde diariamente se cozinhava e de onde saiam odores de comidas que nunca mais provei e de momentos de proximidade, quando era inverno e ali me aquecia, como nunca mais voltei a experimentar.
As vozes na cozinha eram raras e pareciam sempre distantes. A empregada raramente falava e só quando outros adultos povoavam a casa é que se ouviam dizeres, pairando sobre uma certa inquietude que me fazia agarrar cada instante e, a cada instante, tentar levantar outras narrativas onde tudo se apaziguasse em qualquer coisa de fantástico e sobretudo de belo.
Eu fui uma criança que perseguia a beleza das coisas. E pensar nisso, nos dias de hoje, é admitir que fui uma criança que desde muito cedo me expus a um sofrimento regular por ser tão difícil seguir a extensão da beleza que possuíam os objectos, as pessoas, as suas vozes e o aroma do mundo. Mas, no fim de contas, não posso dizer que fui uma criança infeliz, uma vez que não poderia ter sido outra criança e o mundo não se me podia ter aparentado de um outro jeito. Uma criança à procura da beleza das coisas é o mesmo que uma criança votada a desafiar o universo ou a desfiar do tecido das horas a sua ordem natural, o seu fatalismo e o seu impossível. E isso não é manifestamente mau.

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