As ruas, a vida e os «santos»

As ruas, quando as mostramos e quando falamos delas a alguém, rebentam-nos na intimidade de um modo muito semelhante ao que acontece quando falamos de nós próprios e das coisas que nos são mais sensíveis. É assim quando decidimos falar da sua história, mas é mais assim quando começamos a descodificar o que emprestámos de íntimo a esses lugares, convidando quem nos acompanha a ser parte dessa mesma intimidade e a partilhar connosco uma parte da vida.
Quis a sorte que há cerca de vinte anos andasse pelas ruas de Fafe na companhia de José Cardoso Pires, mostrando-lhe essa minha interpretação do mundo através das ruas da minha terra, mas acima de tudo escutar a sua resposta, entrando eu na íntima ironia que o caracterizava, no seu inteligente sarcasmo, na sua muito própria força de vida.
Andámos o dia todo a vaguear pela cidade e a conversar como se tudo aquilo fosse uma oportunidade, uma oportunidade de aprender com a vida e de perceber que tantas vezes mais vale o corrido que o lido, como tão bem gostava de dizer José Afonso, citando a sabedoria popular.
Neste dia de todos os Santos, recordo esse passeio com Cardoso Pires e aqui ficarei o resto do dia a pensar como efectivamente se cruzam nas nossas vidas espécies de «santos» que pela beleza e o espanto nos mudam a forma e a trajectória que vamos dedicando a essa estranha e apaixonante coisa que é a oportunidade de estarmos vivos.


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