O tempo e os seus vazios.
A transformação do mundo é um dos mais belos enigmas. Quando olhamos para as nossas cidades vemos com frequência o restauro de antigas casas que renascem na forma de edifícios de utilidade pública. Passam a ser, normalmente, sedes de registos, museus, arquivos, locais de cultura, entre outras finalidades.
Quando as atravesso, não deixo de lembrar que por aqueles sítios já foi projectada a casa, com o cuidado e o sonho sobre cada aposento, para ser usado na intimidade. Que por aqueles espaços já brincaram crianças, já se leu em longos serões, já se amou e desamou, já se viu nascer e viu morrer. Já ali se cozinharam as mais diversas iguarias que certamente marcavam as estações, já ali se ouviu a chuva e se abriram as janelas para deixar entrar a aragem nos verões mais duros.
As paredes dessas casas estão cheias de histórias privadas e são a sua primeira pele, a sua primeira camada de vida. No entanto, a vida de cada um dos seus proprietários levou rumos díspares e aqueles que eram os lugares de dentro passaram a ser os lugares de toda a gente. Não há mal nenhum nisso. É apenas o tempo a passar pela nossa existência e pela dos outros e, ainda bem, que sobrevivem exemplares merecedores de serem recuperados e reutilizados.
E mais: ainda bem que há edifícios que reutilizados, ainda nos oferecem as hipotéticas histórias e as emoções daqueles que lá viveram e ainda nos acenam de outras épocas, redimensionando vazios, preenchendo em nós o que, não tendo vivido, são as raízes do que sabemos ser o nosso tempo, esse tempo que há de acenar a outros tempos para sermos dele a melhor ficção dos dias. Pelo menos assim se espera.



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