Guardar.
Aprender repetidamente. Guardar na luz dos dias a frase mais curta e deixar que nela habite o que não nos morre. Ser o que somos com tudo que salvámos, com tudo que condenamos à imortalidade. Ser estranho para poder ser de dentro e deixar que o espanto seja a condição de andar vivo. Não há amor sem surpresa, não há abraço que não seja toda a vida o primeiro, não há sorriso que não abra a estrada indefinível do que se virá a amar a seguir.
Somos a imagem dos passos todos. Não nos devemos preocupar com quantos nos faltam para o fim, porque na realidade estamos, a partir do fim, guardando para sempre os passos dados.
A tarde é uma viagem para sentir falta de tudo o que guardámos. Talvez assim se defina a saudade. Talvez assim se sintetize a vida. Estendo o olhar quieto à paisagem desordenada das emoções, comove-me essa desordem e essa perdição. E quando me encontro não é senão para que possa dar infinito à pergunta seguinte.
Se pararmos de perguntar começamos a morrer. Numa pergunta existem mil respostas, mil dias, mil cansaços, mil vezes em que amámos. A tarde é uma viagem para sentir falta de tudo o que guardámos. Guardar-te-ei na luz de todas as tardes. Apenas aí, para seres intocável e imortal. Tal como os deuses ou as pessoas que não desistem de ser apenas o que amam.



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