O espectáculo.


Os lugares vazios. As histórias que são difíceis de acrescentar a essa evidência. A interpretação difícil do tempo. Os lugares povoados pela ausência. Os lugares cheios desse vazio.
Às vezes sinto saudades de um tempo longínquo e sou, ao mesmo tempo, feliz pela lembrança e inadaptado pela circunstância que traz dessa lonjura as suas repetidas impossibilidades, os seus flagrantes nunca mais.

-Do camarote da tua alma avista-se um espectáculo onde entras e não entras, onde és criança à procura de tudo e adulto a tentar gerir os nadas com que te foste deparando à medida que os dias se foram gastando. Desse camarote, vais-te preparando para o grande espectáculo, preparando os aplausos e as emoções, as saudades que irás reconhecer nessa noite e o entusiasmo que te fará bater outra vez o coração, à míngua de um instante, talvez fatal, talvez final, por te acrescentar o amor no seu estado mais novo e mais maduro. Serás o teu próprio e íntimo espectador, o mais cruel e o mais próximo. Serás uma espécie de fantasma a deixar sobre a ambiência do camarote o sofrimento e a alegria, na certeza de que mais ninguém dali voltará a assistir a essa grande representação, a essa ininterrupta e magistral despedida, que és tu a viver e a pensar no mundo que deixarás ao mundo, assim que morra o instante, assim que pares de aplaudir ou de te emocionares e em cena não estiver ninguém, nem sequer a tua própria ausência.

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