A minha manhã em Delft

Quando Vermeer pintou «View of Delft», inventou uma cidade. Esta foi, dentro deste género, a sua última obra. Detenho-me neste quadro e na atitude de inventar a cidade e de o fazer enquanto última vez de qualquer coisa.
Ao longo da vida, por diversas circunstâncias, somos obrigados a reiinventar o mundo. E fazê-lo nem sempre é penoso ou significa dissonância com a realidade. Antes pelo contrário, às vezes significa misturarmo-nos emocionalmente com o que mais desejamos, fazendo daí emergir um novo corpo que é o resultado da nossa exsitência com a coisa amada.
Vermeer inventou uma cidade e talvez se tenha despedido dela assim. A poética dessa intenção segura-me, nas vésperas deste Natal, e acrescenta-me a ideia de que o seu contrário é igualmente possível: chegar a uma cidade nova e reinventá-la à escala da nossa história interior e do nosso velho rasto pelo mundo.
A grande visão que terei de colher nestes dias é a de um mundo novo, capaz de estrear uma nova roupagem, elevando em si a memória de um outro. Uma cidade onde chegaremos e teremos de ser inteiros, por respeito a nós mesmos e sobretudo ao que fomos vivendo durante o tempo em que não éramos daqui.
Uma cidade nova carregada de herança e de dúvida é o que nos espera nesse novo porto, nesse novo atracar. E como todos os viandantes, havemos de perguntar por quase tudo, menos por aquilo de onde nunca fomos capazes de partir. E a esperança será a de ir encontrando, passo a passo, rua a rua, os inícios de uma nova história, os primórdios da beleza por estes ainda tão estranhos lugares.


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