Perfect days.

 

A Língua do Cinema tem os seus apropriados segredos. Um deles será a forma como nos quer dizer ou como nos quer entrar pela vida, fazendo-nos experimentar sensações e intimidades como se de uma alquimia inesperada, porém autorizada, se tratasse. 

O filme «Perfect days», de Wim Wenders, fala-nos de um homem que experimenta a sua mais bela solidão, num escolhido recato e num viver profundo e simples as coisas dos Homens e as expressões irrepetíveis do universo. Um homem a envelhecer num calendário onde soma rotinas de não desperdício do sonho e dos instantes que o estar vivo proporciona. 

A Língua com que o realizador nos fala neste filme atira-nos para o desconforto de repetições cénicas para nos levar, sem que o saibamos, à descoberta do ser-se íntimo da personagem que nos apresenta e para nos podermos, livre e intimamente, experimentar na parte da personagem que nos toca e que nos fica, por via de um filtro de identidade que a arte sempre deixa.

A aparência de repetição que ilustra a rotina é a senha, o sussurro que magicamente nos faz ser parte de tudo no filme a que assistimos, como se por magia tudo soubéssemos acerca daquele homem, da sua casa, dos seus objetos e das suas liberdades. Ficamos a ser uma espécie de personagem que se senta no banco do lado do condutor, a mesma que chega a sua casa ao final da tarde ou a que olha, ao seu lado, o dia que começa.

«Perfect days» traz essa magia do cinema, e num silêncio muito belo, faz-nos mudar de pele, mudar de vida, para uma mesma pele e uma mesma vida, só que pela mão das perguntas que nunca tínhamos feito ao espaço que em nós existe para a passagem do tempo e a simplicidade redentora do universo.

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