Eu e a criança imaginária.
De volta a casa. Passo a passo, os cinquenta anos de Abril. Há uma criança imaginária que trago pela mão. Recordamo-nos de se dizer, em casa, que se não podia falar mal do governo, em voz alta, porque a PIDE estava por todo o lado.
Andamos, agora, nas ruas como andávamos pela Vila e, aqui e ali, surgem as imagens que ficaram para sempre nossas.
Ainda se ouve o acordar na Praça ao som da marcha do MFA e o esplendor da bandeira rubra, de quatro metros quadrados, que pendia sobre a varanda do Partido, com o emblema pintado à mão numa tinta amarela que resistiria a todas as intempéries menos à indiferença.
À porta dos cafés retomavam-se, entre fatos domingueiros, as histórias, umas mais fantasiosas do que outras, sendo que todas a incendiar a razão, tal como no amor, numa fronteira tão ténue entre a paixão e a fúria.
A criança imaginária que trago pela mão recorda-me os morteiros e as vozes da rádio que, nessas manhãs, pausavam o cançonetismo e a pop para povoarem as ondas radiofónicas de canções proibidas nos tempos vencidos. Na televisão as imagens ainda sem cores mostravam a Assembleia e os discursos solenes.
Pela casa, o aroma do assado que vinha do fogão em ferro, ainda a lenha, e o almoçar cedo para aproveitar o feriado e dar um passeio até perto do mar ou da cidade. Falava-se da guerra civil que estava para vir e, no correr dos anos, neste mesmo dia, da guerra civil que não chegou a vir.
De volta a casa, ao passar na praça e a olhar a janela do quarto que fora dos meus pais, lembrei-me de quando ali vínhamos espreitar, em 75, noite tardia, com algum sobressalto, acordados por um saudosista do fascismo que conduzia um Citroen boca-de-sapo com um altifalante e que, emocionadamente, dava vivas a Salazar e pedia o seu regresso. Nessa visão, veio-nos, a mim e à criança imaginária que trago pela mão, a síntese desse nosso caminhar. A Vila já é cidade, na casa onde viviam os meus pais já lá vive outra família, a bandeira rubra de quatro metros quadrados, tal como Salazar, teve um desaparecimento físico. Contudo, a luta, por mais dura, continua a mesma, não deixar que a bandeira sucumba pela indiferença e que Salazar não sobreviva pelo ignorar.
De volta a casa, a criança imaginária que trago pela mão perguntou-me com o olhar se seríamos para sempre os mesmos. Eu respondi-lhe que sim, como se fosse uma jura, e acho que pela tarde ainda nos conseguimos ir ver perto do mar.



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