O postal de Hiroshima.




Num tempo em que quase se abandonaram os postais, recebemos, esta manhã, correspondência vinda do Japão, de uns amigos/irmãos que, caminhando pelo Parque do Memorial da Paz, em Hiroshima, recolhiam, das suas frondosas árvores, umas folhas caídas e as juntaram a um postal com notícias do outro lado do mundo.

A nossa passagem por esta vida tem nestes gestos a sua âncora. Que mais poderia desejar do que ter em mãos um pedaço de vida que chega de um lugar lendário colhido por quem queremos muito mais do que às próprias lendas? 

A síntese desse gesto guarda a idade e a geografia do nosso tempo. Alguém passeando-se na lonjura levava nos passos a renteza e a proximidade do que importa. Só nesse rente se consegue libertar a infinidade do olhar e a funda razão do contar. 

Uma parte da viagem que mais significa é a possibilidade generosa de a poder dizer. Lembro-me que, quando o meu pai morreu, deixei de lhe poder contar as minhas viagens e isso esvaziou-as de sobremaneira. 

Quando recebemos um postal, recebemos o que se estende de nós no coração do outro e por mágica consequência no coração do mundo. 

Este postal e as folhas das árvores apanhadas no chão de um parque em Hiroshima ficarão para sempre no nosso escritório, que é um planeta onde cabe um mundo feito à medida de tudo o que o amor desmede e que queremos que viva para lá do tempo, na construída essência da luz. 

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