Ser uma ideia.


Hoje, o meu Partido completa 51 anos. Apeteceu-me voltar ao meu arquivo e retomar um documento fundador, publicado na clandestinidade, em 1973, que é a «Declaração de princípios e o programa do Partido Socialista».

Foi o meu avô quem o pediu, assim como o fez a outros Partidos que, em 1974, se legalizaram, para poder decidir, conscientemente, em qual deveria depositar o seu voto. Este gesto foi para mim uma grande lição de vida. Não se pode ser de um Partido por moda, circunstância ou seguidismo. Deve-se ser e aderir a uma ideologia quando essa proposta de mundo se confunde com a nossa e a enriquece.

Não faço a mínima ideia em quem teria votado o meu avô nas únicas eleições em que o pôde fazer. Mas, tenho a absoluta certeza de que o fez, com a seriedade e a tranquilidade que quem o conheceu lhe reconhecia. Uma coisa eu sei: era Republicano. Sempre o assumiu. Desconheço se por influência do seu pai que, no concelho de Felgueiras, tinha lutado por essa causa e nela quase tudo perdera em termos materiais, ou se por um vivenciar mais pessoal e íntimo.

O avô partiu no dia 31 de março de 1977. Deixou-me essa lição: ler e depois decidir em consciência, em liberdade, em serenidade, respeitando quem não pensa do mesmo modo, depois de também ler, de também pensar e de decidir em liberdade.

Olho para este documento, produzido pelos fundadores do meu PS, ainda no exílio, e curvo-me no exemplo que nos legaram, arriscando tudo, colocando tudo em causa em nome de um valor mais alto que era o do ideal que lhes justificava a existência. Sim, a existência toda. Não se é de um ideal por nele votar. Ser de um ideal é ser-se inteiro nesse ideal.

Quando morei em Lisboa, enquanto deputado, fui, por obra do destino, vizinho de João Soares e, quando com ele me cruzava ou com os seus filhos, pensava sempre nisto. Aquelas pessoas tiveram a sua vida marcada pelo peso dos ideais que povoaram os seus ancestrais e que ainda os povoam. Naturalmente, cada um ao seu jeito, nas suas alegrias e nos seus abismos. Em Fafe, tive o gosto de conhecer Isabel Soares e, para lá da figura admirável que é nas suas múltiplas dimensões, pensei muito, senti muito, que aquela era também a pessoa que viu o pai deportado, preso e exilado, e que esperou dias livres com uma mesma esperança e um mesmo desespero que outros sentiram com destino semelhante.

Olhava-os com a ternura da História, com a comoção e o sentimento de que naquelas vidas havia a vida de uma ideia e de um país. Olhava-os, sabendo que, neles, isso era publicamente evidente, e lembrava um conjunto de outros resistentes, operários, literatos, gente de todas as classes que também o foram nas ideias que defenderam e as tornaram tão suas quanto o seu próprio sangue e o dos seus.

Sou socialista na forma como amo, na forma como participo na educação dos meus filhos, na forma como me relaciono com os meus amigos, na forma como celebro, nas razões por que me emociono, até no modo, tão íntimo, como me tornei crente em Deus. Sou socialista. Não sou melhor por ser assim. Mas, sou. E isso me basta. E isso me continua a libertar.

Olho para este livrinho, que voltei a tocar, como quem chega a um país e lhe desconhece a dimensão e lhe apetece o infinito que nele guarda. Guardo este livrinho porque, para mim, ele é um chão. Um chão de uma estrada a perder vista, ilimitada, tão ilimitada quanto a liberdade e a humana vontade de se ser.

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