O meu tio David

 




O meu tio David sempre perseguiu a Liberdade. Era um homem complexo, um artista, um amante da vida. Desenhava e pintava com grande mérito. Dizem que tinha os genes do avô Rocha, que sempre apreciou as artes, desenhava muito bem e foi o grande responsável pelo meu pai ter o nome de Pompeu e eu também, por consequência. 


O tio David era um homem generoso, com uma ironia sobre a vida que ainda recordo com saudade. Sinto muito a sua falta. 


Quando eu era criança ia quase diariamente a sua casa após o jantar. Ele sentava-se no sofá da sala, junto à lareira, preparava um balão de cognac ou de jerez e aí via escrupulosamente o telejornal. Colocava o balão na dobra da perna. Às vezes adormecia levemente, mas nunca deixou cair o copo. 


Eu e o meu primo brincávamos no chão da sala, ao lado do sofá e, quando achávamos que ele dormia, falávamos ligeiramente mais alto. Ao que ele sempre ripostava: 


- Meninos, já vos disse que estou a ouvir as notícias. 


Aquele sofá era um trono, mas não de um rei. Era um trono de uma pessoa que era pessoa por inteiro.  O tio tinha da vida um sentido pleno e agarrava-a com tudo o que podia. 


Em 1944, desenhou, nas folhas de papel da mocidade portuguesa, um retrato de Churchill  e um outro do Presidente Roosevelt, que ainda conservo na parede da sala. O tio gostava de desafiar os limites. O amor à vida era para ele uma redundância. Tínhamos de viver, de aproveitar, de festejar, de estar onde valia a pena estar, de partir para onde era importante que partíssemos. 


Vivia aqui mas nunca se conformou com a interioridade. Vivia aqui e nunca abdicou de querer e de pensar como se queria e se pensava no centro do mundo. 


Ensinou-me que o centro do mundo é no sítio onde colocamos o mundo no centro. O resto é a pequenez do tempo, do momento e dos resignados. 


O tio David partiu cedo demais. Tinha pronto o seu atelier de pintura onde tinha planeado pintar e desenhar até ao fim dos seus dias. Acredito que nos privámos de uma obra que seria notável, pois ele tinha tudo o que a um artista se exige. 


Hoje, olhando o meu cadeirão, muito parecido com o dele, pensei na brevidade e na intensidade da vida. A vida é muito mais breve do que a maioria julga. E nessa constatação voltei a sorrir como se o abraçasse de novo e lhe dissesse: 


- Não vamos perder um único instante, querido tio. E o centro do mundo é mesmo no lugar onde colocamos o mundo no centro. 


 

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