A serena fortuna.
Na tenebrosa cadência dos dias de guerra, retomo o oriente e folheio ao acaso os poemas de Bashō.
Lembro as paisagens a serem paisagens na sua singular quietude. Os pássaros a serem pássaros, num poisar tranquilo sobre a ramagem das árvores que bordavam as sombras dos primeiros dias de calor; as flores a serem o seu silvestre recorte; a água a correr pelos seixos e a chamar por um tempo que se esvaía numa mesma correria sem que o soubéssemos.
Dos nossos campos adivinhávamos o mar sem que o víssemos e sabíamos também que, dos riachos, aquela era a última água que podíamos tocar, a que nesse mar encontraria destino.
Hoje, pensamos o mesmo sobre a vida. Avistamos um fim, só não temos a sorte de saber se há um oceano à espera onde possamos ser outros, com tudo o que aprendemos enquanto passávamos e íamos morrendo, felizes por nunca mais sermos os mesmos, mas com a serena fortuna de quase tudo podermos lembrar.



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