Teatro-Cinema de Fafe.

Ontem, dia de feiras francas em Fafe, apanhei um daqueles supapos na alma com que não contava. Foi extraordinário regressar ao velho teatro cinema, onde actuei em pequeno e onde não entrava há mais de 25 anos.
A ministra da cultura, Isabel Pires de Lima, visitou o imóvel tendo-lhe sido solicitado apoio do Estado para o seu restauro. O Presidente da Câmara garantiu que a obra avançará com ou sem apoio.
Sentado, no meio de discursos e explicações, mais feliz do que um gaio, tive de esforçar-me para que não fosse visível a emoção, perante o confronto tão feliz com a saudade de uma Fafe desaparecida, mas tão intacta naquele sítio, naquelas cadeiras, naqueles camarotes, no palco que ainda conserva a cortina original, pintada a dourado em fundo bordeaux.
Lembrei-me das pessoas que ali vinham, das histórias de bailes no salão nobre em que o meu pai participava, dos comícios anti-fascistas que ali se realizavam, da minha querida e saudosa amiga Drª Maria Miquelina Summavielle a praguejar contra o regime, com a PIDE à porta. Lembrei-me do ambiente e da espetacularidade que era ver cinema ali, da especialidade do acto, da sua emoção.
Lembrei-me e fiquei apertado por dentro, sem saber muito bem o que fazer a seguir, se agradecer a todos por ali estarmos, se a Deus pelo edíficio não ter ruído já, se aos meus contrerrâneos por terem, como inteligentemente afirmou a ministra, merecido estes equipamentos.
No último balcão, jovens músicos de Fafe tocavam e, aí sim, foi o final feliz, o velho teatro agora para eles e para os que vierem, para os que vierem um dia sentar-se na cadeira onde hoje me sento e emocionar-se por tudo, pela beleza, pelo espaço, pelo que viveram ali, pelos que desapareceram, por tudo que é seu e que nunca nos deixará morrer, nem ao teatro, nem à nossa querida terra.


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Abraço
Pompeu
António Daniel