Paris.

Regresso de Paris. A cidade está cada vez mais suja e mais deserta. Contudo, o meu amor, quase inexplicável, pelo sítio mantém-se intacto, como se mantém a fé numa sociedade cada vez com menos classes, cada vez mais justa, mais esclarecida, melhor para todos.
Andei imenso de Metro, como de costume. Nos lugares de sempre, voltei a angustiar-me pela falta de referências e pela constatação de que quase todos ou éramos turistas, ou andávamo-nos a safar.
Voltei a não encontrar a paz e o sossêgo que caracterizam a civilização. Se há algo que me repele nas pessoas é a sua incapacidade contemplativa. Quem não contempla dificilmente se demora a sentir e por, consequência, a dar. Não vi muita gente assim. Voltei a não ver muita gente assim. E porquê? Talvez porque em Paris, como em tantos outros lugares, asfixiaram a classe média.
Em Paris, ou vivem os muito ricos ou os miseráveis. Ambos produzem submundos, realidades próprias, com regras próprias, longe das civilizações e do processo de consciência colectiva.Ambos se sentem confortáveis para criar regras apetecíveis e muito suas. Ambos se distanciam da maioria, ambos não se importam com a maioria. E o que raio vem a ser a maioria?
A maioria é a primeira expressão do cudidado com o outro. E isso, que efectivamente rareia. O que é pena. O que é dramático.
Volto de Paris com a sensação de que se está a perder a civilização e não há nada pior do que isso.
Por cá, espro que a canção se aplique e que isto nos sirva de exemplo: «Lisboa não sejas francesa/ Tu és portuguesa(...)».
Mas, como no filme, também não deixa de ser verdade e de se poder argumentar: «We will always have Paris». É assim que me sinto, inconformado com a realidade, sem contudo baixar os braços, estando pronto a acreditar que um povo que ajudou a derrotar nazis, também há-de ser capaz de regressar a um estatuto que exiba, como já exibiu, o romantismo do mundo, o progresso do mundo e a sua tolerância.
Verdade, verdadinha, ainda não conseguiram roubar-me a riqueza de um acordeão a vencer os dias tristes, o rosto de uma mulher que espera, a expresão de amor de um homem que volta, as ruas livres, as flores à janela e gente, muita gente, a sentir e a saber que a liberdade é uma realidade e um imenso estado de espírito.
A sentir e a saber, com esse traço que da França tanto derramou no meu inconformado e militante coração. Um coração que sente e que sabe e que é sempre capaz de virar costas a quem não quer perceber que o segredo das coisas ainda reside na imensa oportunidade de sabermos e de sentirmos.


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