A cantora de Monmartre.

1
Corpo desalojado, habitante de sombra e de música. Corpo inexsitente e longo, agora debruçado sobre o tempo dorido na parede encardida, a inesquecível, a dos dias de folia e extâse, a dos dias futuros e desconhecidos.
2
Ao piano. Nota a nota, o silêncio do canto onde a música se eleva ao cume do vazio e da emoção.
3
Quando cantavas, eu escrevia. Escrevia para os amigos que não tinha, para a família que não via, para os homens que invadiam praças e queriam rasgar mundos novos no corpo do velho mundo.
Era um tempo cheio de cantoras como tu e escritores como eu, cheios de desaires e solidões que acabavam sempre por trazer novidades e progressos na sua voz espavorida, esses pássaros esganiçados e loucos que, longe de nós, anunciavam a liberdade. Nesse tempo em que tu cantavas e eu escrevia.
4
O teu canto era tanto mais belo quanto solitário. O que ensaiavas no velho quarto sem vistas que não fossem a dos vizinhos da frente.
O teu canto nas tardes de Dezembro, a voz fria de saudade como o corpo de vazio.
O teu canto durante as tardes, a irromper pela eternidade sem que o soubesses, nesse amor que te dediquei e que nunca cantaste.
5
És uma violação do mundo quando cantas, porque a tua voz é uma ferida na ignorância alheia, a que desconhece o que nunca teve e a isso responde com a riqueza superflua do que já possui.
6
Ao fundo da rua é o teu quarto. Ao fundo do meu coração, o teu canto.
Paris 13 de Maio de 2007.


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