O corpo puro.

Talvez haja um corpo a nascer lentamente de uma história. Um corpo muito novo e muito puro, incapaz de reconhecer o mal e a angústia da posse. Um corpo que apenas guarda o que se não vê e nisso aposta quase tudo, do mesmo modo e com a mesma intensidade que o mais feroz jogador.
Esse corpo tem um longa estrada sobre si, cheia de histórias, todas elas vocacionadas para a criação magnífica do olhar que se lança sobre o que é passado.
Como guarda apenas o que se não vê, o corpo fica parado a olhar essa imorredoura paisagem com uma sensação semelhante ao de um barco deslizando pela suave correnteza de um rio. Um rio do qual se desconhece o seu início, avistando-se contudo o lugar de partida e o trajecto ao longo do tempo.
Esse corpo também não sabe nada sobre o que signífica e onde se encontram o início e o fim das coisas. Não se importa com isso. Nesse não se importar, reside a noção de Deus. Está, deste modo, de contas ajustadas com a metafísica. Apenas a Deus cabe o exercício de origem e de final.
Ao corpo cabe a missão de preparar uma narrativa que sustente esses dois momentos. Que os sustente no sentido de alimentar, que o enrede, que o liberte para ser muito longínquo e para que as suas vozes ou ecoem na distância ou sussurrem.

- Dou-te este corpo porque sei que não guardas coisas, apenas guardas o que se não vê. Dou-te a única forma que consegui para não ser finito, dou-te como quem diz vejo-te, dou-te como quem diz que somos um mesmo corpo, como o de Deus, como o mistério mais bem guardado do que é interminável e nos disseram sempre ser capacidade única dos Deuses.

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