A Europa.

As noites estão a voltar ao calor do verão. Hoje, dia da Europa, tenho o pensamento num continente diverso e unido, com pessoas crentes em muita coisa e outras nada crentes, tenho a alma a vadiar por esse mundo europeu que já por si é um sonho, um sonho de encontro e de paz, pese tudo o que está mal, todas as injustiças e todas as desordens. Viver numa Europa que baniu a sombra da guerra é quase viver no paraíso e num inominável avanço da civilização, que o digam os nossos pais.
Esta noite, tenho o coração em Istanbul, na rosa do profeta que me ofereceram os irmãos turcos. Tenho aí um sonho que se parece com um filho pequeno, o sonho de os ver junto de nós, sem terem de vender a alma, bastando que façam o caminho da liberdade, bastando que estendam o coração como quem estende a mão, num gesto esclarecido e verdadeiro, próprio de irmãos, próprio de quem não pede para ter de dar, próprio de quem não cobra.
O meu sonho de Europa ainda é a diversidade, ainda é sentirmos Deus num chamamento do minarete, como o senti nas noites solitárias de Istanbul, ou na capelinha do monte com pequenos sinos a anunciarem o período da oração.
O meu sonho de Europa ainda é essa diversidade que ensina e não a diversidade que compete e que oprime. Ainda está muito rente à voz antiga das cidades velhas com gente que traz no peito histórias inifinitas de viajantes e de estrangeiros que serviram muito mais para nos alimentar o espírito do que para reforçar o ouro. Ainda é a Europa de fugas e de descobrimento, de encontro e de dádiva, de espanto e de paixão.
O meu sonho de Europa é que cada europeu tenha uma Europa muito diferente a pulsar no seu melhor coração e saiba contar uma história com outro sabor, que cheire a outra coisa, que reluza de um outro modo.
A melhor Europa é a que não existe senão no coração dos europeus, unidos num enormíssimo ideal de liberdade e de paz, traduzido na mais bela e na mais indestrutível visão de uma Europa sentida. Sempre pronta para quem vier por bem, para quem vier movido pelo sonho, pronto a reequacionar, pronto a ser na diferença o ser completo, a ser na diferença o ser genuíno, aí encontrando o inesperado, aí desejando ainda mais inesperado como condição para a felicidade.


Comentários
e por ser da minha terra, mais me deixa feliz por saber que Fafe tem escritores e pessoas assim.
saudações
Pompeu