Poema incompleto
E se a terra for a pele onde plantada
está a transparência do olhar,
a limpidez da palavra,
o abraço demorado
onde cabem os riachos e as giestas,
ou os penedos solitários a marcarem
a liberdade dos montes;
E se o céu for o infinito do voo,
a morada desgeometrizada das aves,
o descanso das diárias miragens,
o berço tão amplo dos nossos limites
ou a fronteira onde os mares distantes
encontram a luz e o seu perfeito silêncio;
E se o universo nos couber
num coração que ainda bate
e reconhece que a livre expressão do mundo
está no segundo precioso que o teu tempo
ainda é capaz de segurar;
Estaremos vivos, amada palavra!
Estaremos salvos
por salva estar a palavra do outro
quando pergunta,
sabendo que só vivemos
sempre que esse questionar se irmana
num gesto que nos completa
como se de um poema
de bela incompletude se tratasse.


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