Poema incompleto

(aos leitores de poemas, pelos poemas que não deixam de completar.  Em memória de Artur Bual que tão bem o sabia e que na sua expressão retratou infinitamente o que dos poetas se fez íntimo da tão nossa humanidade.)


José Gomes Ferreira retratado por Artur Bual


E se a terra for a pele onde plantada

está a transparência do olhar,

a limpidez da palavra,

o abraço demorado 

onde cabem os riachos e as giestas,

ou os penedos solitários a marcarem 

a liberdade dos montes;

E se o céu for o infinito do voo,

a morada desgeometrizada das aves, 

o descanso das diárias miragens,

o berço tão amplo dos nossos limites

ou a fronteira onde os mares distantes 

encontram a luz e o seu perfeito silêncio; 

E se o universo nos couber 

num coração que ainda bate

e reconhece que a livre expressão do mundo

está no segundo precioso que o teu tempo 

ainda é capaz de segurar;

Estaremos vivos, amada palavra!

Estaremos salvos 

por salva estar a palavra do outro

quando pergunta,


sabendo que só vivemos 

sempre que esse questionar se irmana 

num gesto que nos completa 

como se de um poema 

de bela incompletude se tratasse.  






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