As manhãs de soalheira leitura em Vizela
Aos sábados de manhã, levávamos o meu avô às termas de Vizela. Enquanto esperávamos pelo fim dos tratamentos, os meus pais compravam-me uns álbuns de banda desenhada.
Em dias soalheiros eu ficava sentado junto ao pequeno lago no centro da vila e lia. Talvez tenha começado aí o meu gosto por descobrir na leitura as personagens.
Sempre gostei de observar novas pessoas e novos lugares. Olhava os pormenores do desenho, as roupas, as casas, os objetos, transportando-me neles como se me pertencessem, como se, de algum modo, pudesse sair dali para acrescentar ao meu universo interior.
Uma das riquezas da vida é o tempo que temos disponível para partir com intuito de acrescentar.
Ainda hoje, o meu exercício da escrita tem nesse desígnio um dos seus apelativos maiores: descobrir o outro, descobrir-me no outro e sermos espantosamente maiores com esse encontro.
Quando estou sentado à secretária a escrever, na verdade não sou mais do que a criança que lia nas manhãs de sábado à procura de outras manhãs soalheiras, com personagens que eram tão fáceis de encontrar naqueles álbuns e que formaram uma ambiência tão límpida de sermos família e de estarmos tão abertos à ideia de que cada dia que sobre nós pousava era um tesouro de hipóteses que se abria para uma história sempre infinita que nunca parou de nos mudar.



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