As poeiras de África
Malangatana
Chegaram as poeiras de África aqui a Fafe. Aqueceu o tempo e soube-me tão bem. Estava a sentir falta de um calor assim.
Esta tarde, estive a reler uma passagem de “A República”, de Platão, e subitamente apeteceu-me enviar uns excertos para que o novo Presidente da Assembleia os pudesse ler em voz alta, aquando da tomada de posse da nova Legislatura. Depois, voltei a pensar que há uma civilização a defender e que, se em tantos séculos se sentiam as mesmas dores, não podemos deixar de fazer a nossa parte, pois ninguém a poderá fazer por nós. A nossa cidadania ou é nossa ou não é. E não é a demora que nos adia ou enfraquece o que continuamos a querer para o bem da Humanidade.
Veio o calor de África e é inevitável que não sinta aquela saudade boa dos africanos com quem partilhei a vida e tanto cresci e cresço ao seu lado.
Em tardes como esta, vêm-me à memória os quadros de Malangatana e de Chichorro ou a poesia de José Craveirinha. E ouço as antigas conversas entre amigos que eram as verdadeiras viagens para um tempo e uma terra que só existem nas conversas mágicas que tivemos. Voltaram as noites no Ritz Club, em Lisboa, nos anos 90 do século passado, a ouvir as vozes e as sonoridades de um africanizar que nos tornava pessoas do mundo, pessoas muito livres e muito felizes pelo encontro.
Existem tanto essas vozes e são um continente de que me não separo, mantendo firmes os passos que ainda faltam. Os passos onde cabem o pulsar da terra com todos os humanos que os alongam até onde a imaginação partilhada o possa permitir.
Na miragem da tarde, há um continente que a amizade firmou, abrindo em mim horizontes para que também seja o produto do que a nossa liberdade, sempre incompleta e inconformada, nos continua a proporcionar diariamente.
Chegou uma tarde de calor com poeiras vindas de África e aqui agradeci, como numa oração, tudo o que se pode abraçar, contrariando tantas vezes a aritmética do tempo, e que, da lonjura, me fez tão perto e tão inquieto do que um humano pode ser, amando a vida toda.





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