A ressurreição dos vivos.
Pela Páscoa íamos ao Douro, a Valdigem, onde morava o afilhado do meu pai e as duas melhores amigas da minha avó paterna.
Levávamos, de Fafe, pão de ló e doces de gema. Lembro-me tão bem do aroma da mala do carro com aquela encomenda. A viagem demorava mais de duas horas.
Chegados ao centro onde ficava a casa, a Mariana ou a Teresa, empregadas domésticas, anunciavam a nossa chegada e prontamente éramos recebidos com um efusivo abraço onde cabia mais de um século, que era a idade da amizade entre as nossas famílias.
Conversávamos sobre as novidades da Vila e as novidades da vida. As vozes da Emilinha e da Rosinha, já com idade avançada, guardavam uma ternura infinita. Creio que assim a mantiveram até ao último suspiro. O Zé, dono da casa, produtor de vinho do Porto, apaixonado também por fotografia, trazia um sorriso para a mesa e uma alegria na voz, maiores do que os lanches de sóbria abastança com que nos recebia.
Na realidade tecíamos o tempo nessas tardes de domingo de ramos. Fazíamo-lo com a inocência das nossas idades, entre a minha infância, a idade adulta dos meus pais e a velhice das nossas amigas.
Nessas conversas, que hoje me soam como música, estávamos todos vivos, até aqueles que já tinham morrido entravam no discurso com a serenidade que só o amor é capaz.
Saímos quando anoitecia e nunca ficávamos para jantar porque Fafe era muito longe. Trazíamos a energia e a verdade toda da quadra, renovando-se anualmente o milagre fundamental e tão evidente da ressurreição.
Naquelas tardes e naquelas falas éramos eternos e contrariávamos qualquer espécie de morte ou desaparecimento. Era a ressurreição dos vivos e dos mortos, sem que o notássemos dessa maneira, daí a inocência das idades a que me referi.
Tínhamos a Páscoa em sentido inteiro e éramos absolutamente livres ao fazer desaparecer a ideia de uma qualquer finitude.
E, por estas alturas, em que já tão poucos resistimos à aritmética da idade, eu guardo para mim essa ideia serena: estávamos tão certos quando aprendemos entre nós a tecer o tempo e a deixar pousar ou repousar essa nítida ressurreição que só o amor conhece, apesar da aparência de morte que o cronómetro revela, só para que não deixemos de, em tempo, preparar o que nos é indispensável para que alguém o receba e, com isso, preencha os nossos vazios e, desse modo, não nos deixe morrer.



Comentários