A lição dos sólidos geométricos e o seu infinito.

A aprendizagem dos sólidos geométricos na Escola Primária era um momento de rara estimulação pedagógica. O Professor Rocha abria, ao fim de alguns anos, a vitrine onde estavam guardados aqueles objetos e retirava-os afim de nos explicar a sua tridimensionalidade e representação gráfica. 

Cada um tocava no cubo, na esfera, na pirâmide ou no cilindro por uma única vez na vida. No final daquela aula regressavam ao seu lugar de sempre.

Tínhamos olhado aqueles sólidos em madeira durante tempos infindos sem lhes tocar. Aquele tinha sido o grande momento. Logo a seguir nos despedíamos e voltávamos a apreciar a sua ideia e o seu fugaz ensinamento.

Curiosamente, com aqueles momentos aprendemos mais sobre a conquista e sobre o poder da estética do que sobre a representação geométrica dos objetos. Aprendemos a desejar, aprendemos a viver com o não ter, apesar deles terem estado sempre à distância do nosso olhar, mas não do toque.

Aqueles objetos eram uma lição sobre a privação. 

Nesses dias estávamos a consolidar as primeiras impressões sobre o que  mais tarde soubemos sobre a razão da política e do efeito das desigualdades. Na vida, como na sala de aula, tantas são as realidades ao alcance da vista e ao inalcançável do toque ou da posse. Talvez, também aí, estivéssemos nos mais fundos alicerces do amor. E não o sabíamos. Aprende-se tanto nesses primeiros anos!


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