A Língua das nossas perguntas.

Edward Hopper 

Gosto de regressar às cidades, de ter nelas rotinas, muito pequenas, muito discretas para que ninguém as interrompa com intimidades que não sejam as desejáveis. 

Aprendi a Língua das cidades, formada com as palavras que fui escolhendo ao longo da vida para um monólogo magnífico que com elas gosto de manter. 

Aprecio essa solidão boa, essa quietude, a sonoridade alheia e a distância que a torna admirável, sem o ruído de um pueril desejo de a integrar de forma visível ou partilhada socialmente. 

Quando vamos a Madrid, revisitamos os quadros que nos acompanharam durante uma  vida. Um deles, está no Museu Nacional Thyssen-Bornemisza. É de Edward Hopper: Hotel Room, uma obra de 1931. Uma mulher sozinha, de passagem por um Hotel, com as malas prontas para seguir viagem. 

Este quadro evoca-me o maravilhoso de todas as partidas e de todas as mudanças. Por mais tristes, as mudanças sempre me inspiraram uma nova luz. E nessa quietude anónima de um quarto de hotel, com a poética das malas que nos acompanham com o que nelas decidimos guardar, consegue ouvir-se o sussurro tão íntimo das perguntas que se acercam. E essas perguntas são promontórios e deles havemos de seguir como se o passado não fosse uma resposta, mas o início de uma pergunta, o início da pergunta que nos leva e não nos deixa parar. 

Nesse quadro de Hopper moram as vezes todas em que aprendi a partir. Partir com a gratidão pelo novo, pelo que se segue, e por nada do que é novo estar só, sendo tudo um rasto de tudo, um tempo sem tempo que se não aprisiona, que guarda para transformar e descobrir, enquanto pode, a matéria da vida. 

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