Antes de morrermos.

cerâmica de Pablo Picasso.
Antes de morrermos que se ofereçam flores.
Que se entreguem as palavras e se veja o seu distribuir
pelo coração do universo.
Antes de morrermos que digamos o amor todo
que conhecemos e aquele outro a que nos atrevemos.
Antes de morrer que sejamos a flor
no céu da boca ou na memória profunda das mãos
a soltarem-se do que deveria ter sido
o infinito e único bater de um coração de pássaro.
Um coração partindo de uma lágrima,
e aí começando todos os oceanos,
aí descobrindo que o mundo é uma pequena coisa
entre a alma da gente e sua despedida do que é fugaz
e só importa ao esquecimento.


Comentários
chamemos o amigo
que nos deu o primeiro poema
devolvamos o segredo da luz
a música crescente do amor
demasiado pesada agora
antes de morrermos
ouçamos a grande voz de deus
ronronar-se como os gatos
num qualquer quadro com gatos
e com flores
e com estrelas
a voz de deus que é como diz:
o silêncio
(assim de repente: para ti)