As perguntas.

foto de Mikael Kennedy.
As margens da manhã a acusarem as frases e os rumores da noite anterior.
Onde vais encostar a nova estante dos livros? perguntava ela.
Ele lembrava-se que arrumar os livros é o mesmo que arrumar planetas, cidades, rios, mares e tudo o que envolve, pelo coração, os lugares e os objectos. Por isso, olhou-a indefinidamente como sempre faz quando descobre uma narrativa, ou seja uma expressão extensa para se referir ao amor.
Depois, foi-a despindo e durante toda a noite rememorou-lhe as cidades que ardiam na sua sempre ansiosa forma de tocar o mundo e guardar os lugares, falou-lhe dos rios e decidiu descobri-los no prazer dela, para depois entrar nas longas cartas de marear, na luta certíssima com a força que tem a natureza e na outra luta com o espanto e com as partidas, com todas as partidas de que sente falta e de todas as outras que já realizou, só para lhe poder contar as coisas que viu e por que passou num mundo que sempre guarda para lhe oferecer, assim que chega, assim que lhe chega com uma parte do corpo e a inteireza do desejo.
Quanto à pergunta, acerca do lugar que ocuparia a nova estante dos livros, tinha, agora que a manhã surge, a resposta mais exacta e mais adequada. A estante nova ficará encostada ao coração.


Comentários