A diferença.

pintura de Jean-Léon Gerôme
Às vezes sinto muita falta da diferença, do confronto com o desconhecido. Tenho saudades do espanto. Se não andar espantado não consigo escrever. Isso é esgotante porque arrasta consigo a consequente ansiedade fruto da pergunta: e se mais nada aparecer que seja novo?
- Sai então do teu corpo. Esquece-te. Anda pela rua como se fosses um caçador de noites e de brisas. Exila-te nas primeiras árvores e na primeira música que vem das cidades. Ergue na sua sombra uma existência. Começa a lembrar-te do que não foste. Deixa que a saudade dessa ideia te invada e te faça diferente. Estás então a ter o teu momento único. Estás outro. Estás pronto a confrontar-te e a regressar ao que foste todo o tempo. Estás pronto a voltar. A voltar com a alegria serena de ainda haver mundo, de tudo continuar como o abismo onde sempre soubeste procurar a mais genuína felicidade.


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