As árvores que ainda vivem.

Pintura de George Innes.
AS ÁRVORES QUE AINDA VIVEM.
Há que saber viver com o tempo. Esta manhã de sábado começou cedo para mim. A cidade ainda estava muito quieta. Numa volta de carro pelas ruas do centro, tentei reencontrar um outro tempo e, quando tentamos estas proezas, estamos quase que a desafiar as leis de Deus. Mas Deus quando nos fez também deixou no adro do nosso livre arbítrio os respectivos desafios e, por isso, lá continuei ciente da condição de mortal e de criatura deste mundo.
A tentativa de trazer outras épocas para esta é sempre um risco. Praticamente, só no Jardim do Calvário ainda continuam a crescer as mesmas árvores que já cresciam quando eu nasci. E isso, para o mundo, não é bom nem mau, uma vez que onde não estão as velhas árvores, estão novas árvores que são aquelas que estão a crescer neste dia em que outras pessoas estarão a nascer e que, com estas, envelhecerão. A vida é mesmo assim.
Mas, fiquemo-nos pelas velhas. É, efectivamente, extraordinário existirem seres vivos que guardam olhares e desejos e frustrações de quem por ali passou. Ter as árvores como cenários vivos, como testemunhas de um tempo, é um privilégio do universo. As árvores que estão naquele jardim são as mesmas que o meu pai via, assim que abria a janela do quarto dele pela manhã, e são as mesmas onde eu brinquei a esconder-me dos meus amigos ali do quelho. Hoje, posso continuar a viver com elas e a deixar que os meus filhos tenham as suas próprias histórias, a sua própria intimidade com essas árvores que também foram as dos seus pais e dos seus avós.
Pergunto-me: quantas pessoas sentem isto como uma boa notícia de um sábado de manhã? Penso: quantas pessoas subirão as escadas do Jardim e se demorarão a tocar as árvores, com as mãos ou só com o olhar, e se deixarão levar pelo tempo, a descobrir o privilégio de estar junto a algo que continua vivo e em crescimento e que testemunhou o tanto da nossa vida que só na nossa memória vive?
O meu amigo Pedro Quinhones regressou à sua casa de Moçambique, depois de 30 anos de ausência. Ainda lá estavam o pinheiro e o coqueiro que os seus pais plantaram no jardim, quando construíram a casa. A mãe já não está, a infância também não, nem os arranhões d’alma da adolescência que também se viveram junto àquelas árvores, naquela mesma casa e naquele mesmo jardim. O primeiro comentário que ele teve foi de uma profunda sabedoria: «o pinheiro do jardim e o coqueiro do quintal cresceram... têm agora mais de 35 anos…». Dizer isto das árvores é o mesmo que dizer de um filho, ou de uma criança que se não vê há trinta anos e que entretanto cresceu. Dizer isto de uma árvore é permitir-se à mais genuína e mais pura relação com o universo. Talvez tenha contado às árvores que tinha voltado, talvez tenha querido saber o que viram, talvez tenha perguntado como continuaram os dias, sim, porque elas ficaram e fizeram ali o seu percurso. Talvez não haja palavras para descrever aquilo que se sente quando se volta e se pode tocar o que nos viu crescer e ainda é tocável e ainda vive e ainda se pode perguntar e ter resposta na velha sombra, no velho aroma, na sua milagrosa permanência, no seu não desaparecimento.
Tudo isto nos dá uma árvore, também por isto são tão importantes, pelo oxigénio que ao planeta deixam e pelo oxigénio que nos depositam no coração.


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Abraço amigo