O entrudo.



Uma festa para a qual não me convoquei. Não sei se se convocam as pessoas para as festas ou se só se convidam. Vou atrás da aragem para ver se há alguma coisa armazenada na memória que me faça pertencer a esta quadra.
Afinal há. Estamos em Fevereiro de 1973. São cinco da tarde. Estou a chegar da Escola. Coloco na cara uma máscara de gato que eu próprio fiz. Era de cartolina azul clara, desenhada a borronas e com bigodes feitos de piaçá. Toquei à campainha. Esperei angustiantemente que a empregada abrisse e se espantasse com a máscara e com momento. Não me esqueço que o susto maior foi meu, dado o mau génio da criatura. Quando, por fim, ela abriu, em segundos respondi, evitando o que imaginei pudesse vir a ser a surpresa:
-Sou eu...
e de nada servira a máscara, nem um susto, nem uma pergunta, nem um comentário. Apenas um virar de costas e a indiferença.
Este foi o mais marcante gesto de Carnaval que tive. Desde então, aprendi que as máscaras mais eficazes são as que construimos para e por dentro. Nesse mesmo instante comecei outra: uma que afugentasse o medo.

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