O tio resistente e sereno.

Dezembro assolado pelo luto. Dezembro duro; o que é estranho, por ter sido quase sempre o contrário disto. O meu tio Albertino morreu com uma idade quase tão avançada quanto o seu testemunho. Mas foi cedo. Muito cedo. Aliás, morre-se sempre cedo perante os nossos dias maiores, perante os compromissos que temos com o coração. O meu tio Albertino, resistente ao fascismo, preso político e perseguido pela PIDE, foi um homem de preocupação com os outros, com o seu bem-estar, com o cumprimento do que é justo. Contudo, foi também um homem de uma sábia serenidade, uma serenidade muito pouco frequente nos resistentes. É curioso como recordo dele o tom moderado e uma ternura que sempre me demonstrou, sobretudo durante a infância nas frequentes visitas que fazia a sua casa. Convivi com esse lado de um revolucionário e guardo disso a melhor das memórias, até mesmo das mais privilegiadas.
Mas houve também o tio político, comunista e combatente. Ao contrário de muitos, sou dos que não esquece, nem deixa de reconhecer e agradecer a coragem de todos quantos sofreram por nós. Também a minha educação cristã a isso obriga. É que não se trata de nenhuma peça de retórica esta questão de antigos desalinhados. Ser resistente significou a privação não só da liberdade, mas a pobreza dos seus e a respectiva perseguição.
Nestas horas de despedida, junto ao túmulo do tio, várias coisas fui sentindo, entre elas a tristeza própria do fim dos ciclos, mas também um orgulho e um prazer enorme por nos termos curvado perante a sua memória e, nela, perante a de todos quantos estiveram dispostos a tudo para mudar o mundo. Quantos seremos capazes do mesmo? A nós, só nos resta aprender e tentar com o nosso melhor estar à altura daqueles que foram o nosso passado mais admirável. Como nos lembrou um sobrevivente do holocausto, importante é não esquecer, nunca esquecer, para que a luta tenha valido a pena e a História se não repita.


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