Os lanches.


No centro dos dias, pouco povoados por emoções que fiquem, retomo através do quadro de Claude Monet, «Le Déjeuner», a idade em que as tardes tinham cheiro, quando só muito longe e compassadamente me dava conta de uma civilização que emergia e causava no seu caminho os desaparecimentos próprios que o crescimento produz.
O desconhecimento desses desaparecimentos trazia uma tranquilidade ingénua, muito estética, muito capaz de não morrer, pese o passar dos dias e as cicatrizes que a si se aliam.
No quintal da casa onde nasci, havia uma ramada de uvas americanas e uns muros cobertos de musgo que emprestavam ao verão um cheiro a liberdade que ainda trago na memória e que ainda consegue trazer-me felicidade.
A Vila tinha sons muito diferentes dos sons de hoje. Ouviam-se as pessoas que conversavam pelas ruas e que chamavam umas pelas outras de modo a que se reconhecessem histórias de convivência entre elas, a passarada, os ventos leves, os poucos carros.
O lanche era diferente dos lanches de hoje, porque dividia o tempo. O tempo para comer, mas também para que se estivesse junto de outras pessoas, para que se interrompesse a tarde, para que soasse a uma última etapa, antes de anoitecer.
Esta tarde, agarro a infância deste jeito e exilo-me por instantes aí, que é uma forma de questionar o que fazer do tempo que resta e não tarda há-de ser memória também. O desafio, contudo, é saber se se consegue levar a qualidade o suficiente para que possamos daqui em diante regressar a estes dias e segurar na face uma réstia de felicidade, uma reserva de alegria para iluminar os dias futuros, para distinguirmos a vivência da sobrevivência.

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