O Jardim da minha terra.


O jardim do calvário, em Fafe, é um jardim suspenso, como muito poucos. Tem espécies de árvores, poucas, mas centenárias e algumas raras. E tem uma infinidade de memórias.
Por lá, vivi muito na infância e alguma coisa na adolescência. No jardim brincava-se a tudo, com cenários à altura da imaginação, e quando se perdia a inocência começava-se a perceber que aquele mesmo jardim tinha recantos que só o coração conhecia e que faziam das tardes lugares de incendiadas paixões, de amores aparentemente infinitos e seguramente secretos.
O jardim do sr Adriano que nos corria à cachaçada do parque infantil a partir dos dez anos, e que já morreu, e cuja falta se notará nos dias muito novos deste jardim restaurado. O jardim dos concursos do vestido de chita, com o Nelinho da Electra a tratar do som e a malta do Nun'Alvares a apresentar. O jardim dos concertos de música e dos encontros de verão das gentes que emigravam e que ali se passeavam para contar coisas boas e bonitas da vida que erguiam muito longe e que iam vencendo.
No dia 25 de Abril, fiquei emocionado e feliz por ver a requalificação do jardim sem se ter morto a memória. Até a terra é vermelha como no tempo da minha infância. Até a terra nos abre o coração e chama ao velho jardim os que, já não estando, são, como as árvores, as vozes de sempre que nos ensinaram a amar aquele espaço e senti-lo como uma espécie de coração que fazemos bater no peito de todas as idades e das criaturas que não deixamos morrer enquanto vivemos ou enquanto pudermos viver nos outros.

Comentários

Anónimo disse…
Tem razão, a terra é mesmo vermelha! Pode não ser um jardim romântico da aristocracia europeia, pode não ser Serralves ou Ajuda, ode não ser o Cerco de Mafra e do Hospital da Caldas, mas é o nosso pequeno jardim onde se guarda a nossa alma grande. Como o lago parecia grande...
Anónimo disse…
é nosso o jardim.
grandes amores viveram,
alguns terminaram.
não tão grandes, pela certa, como soía o amor

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