A arte de viver.


Este final de noite, regressei ao quadro de José Malhoa, «A praia das maçãs», e aí redescobri as idades e a importância de certos objectos perdidos na luz que apenas na memória habita. Os bancos em madeira com a cor moldada pelo passar do tempo, os muros caiados e disformes, mudados pelo Homem na eterna recepção das estações quentes, a sombra das coisas e as nossas sombras. Tudo a entrar por uma lenda de verão, tudo a chegar a uma espécie de quietude que só se conquista com a preserverança de olhar os dias de hoje com a sobranceria da simplicidade.
Nos últimos tempos, tenho andado, na medida do possível, a lavrar nos meus espaços os lugares onde pretendo colher alguns dias calmos, a sorver luzes inesquecíveis, brisas, sons de pássaros e de gente que não tolham a inteligência do dia.
Por isso voltei a este quadro, para daí ganhar renovada força e ir em frente nessa conquista de inenarrável contemplação, de recomendável forma de orar e agradecer a Deus o facto de nunca ter deixado de nos fazer chegar as estações quentes, as brisas, os pássaros, ficando em nosso arbítrio o difícil engenho de saber amar tudo isso.

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