A Mãe da Farmácia.


Talvez eu tenha sido a nona pessoa a tratá-la por Mãe. A Mãe da Farmácia. Não era minha Mãe, mas muitíssimas vezes foi quase isso. Quando era pequeno, ia lá casa todos os dias. E todos os dias me acolhia um sorriso e uma voz que palavra alguma será suficiente para caracterizar a forma como aquele sorriso e aquela voz se caracterizavam no imenso coração que tinha o meu pequeno corpo.
As outras pessoas tratavam-na por D. Maria Eugénia e faziam-no de uma forma que, até nas coisas mais simples e quotidianas, revelava um permanente encantamento. A Mãe não parecia deste mundo, tal era a forma como conseguia todos os dias reservar uma dose de condescendência, de paz e de entrega aos outros.
À hora do lanche, saíamos ambos da salinha e íamos para junto do fogão a lenha preparar o leite. Ainda tenho na memória o cheiro do leite que às vezes caía sobre o ferro durante a fervura, dado que nessa altura não havia ainda leite pasteurizado mas havia um leite com um sabor e um cheiro que nada tinha de idêntico ao de hoje. Durante os lanches ia-me ensinando coisas, perguntando outras e, com um ar inesquecivelmente terno, ia verificando os meus progressos de linguagem, sorrindo sempre que eu não caía numa armadilha de português ou demonstrava conhecimento sobre uma personagem qualquer que estivesse aparentemente distante da minha idade. E sempre houve ali um tesouro, na forma como era capaz de cuidar e de sentir como sua cada pessoa que entrava naquela casa. Talvez, também por isso, permitiu e achasse natural que eu a tratasse por Mãe.
A existência de pessoas assim é que nos fazem manter viva a esperança na humanidade e que essa mesma humanidade há-de sempre revelar-se nos momentos mais difíceis. Não consigo medir o quanto lhe devo, para além deste enormíssimo amor e da forma como não desaparecerá do lado melhor de cada um de nós.
No momento em que nos despedíamos, ouvi a minha mãe dizer:
A D. Maria Eugénia foi a melhor pessoa que conheci na vida.
Fiquei em silêncio, perguntando-me quantas mais pessoas estariam a pensar o mesmo naquele instante, e como a vida valeu tanto a pena, querida Mãe.

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