O beijo da arte.


Kiss - quadro de Edvard Munch
Quando um quadro pode revelar uma idade, então esse quadro é uma obra prima. «O Beijo» de Edvard Munch levou-me a um tempo de invernia e profunda cumplicidade, há vinte anos, quando o mundo tinha as cores do seu quadro no interior mais interior que possuía.
Mais uma vez, a questão da verdade na arte se recoloca neste excelentíssimo exemplo. A única verdade que tem este quadro, e a que importa, é aquela que se liga à verdade que emerge da sua relação com o observador e, mais do que isso, com o seu vivente. Viver com a obra traz uma nova verdade sobre ela, longe do academismo que a rodeia, importantíssimo aspecto, porém de consequência menor na vida de cada um. Por outro lado,dirão, e bem, os críticos que sem o esforço da técnica, do pensamento e do encantamento do autor, verdade alguma existiria para quem quer que observasse. Porém, o que distingue o correcto do genial é sobretudo essa ligação ao «sangue do mundo» como diria Neruda, ou aquele que é o «penoso trabalho da arte» como me disse Júlio Cunha e o que daí resulta desse misterioso trabalho que ainda conserva as artes num refúgio incapaz de ser ensinado, a não ser pela vida e o que ela nos reserva de único, oferecendo-nos aquilo que tanto nos apraz, a utópica e ambicionada originalidade e genuinidade.

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