Biografar o instante seguinte.

Os últimos almoços têm sido acompanhados pela biografia de Chagall. As biografias têm a capacidade de nos proporcionarem uma companhia muito efectiva e com a possibilidade de nos deslocarmos no tempo com a interpretação do biografado.
Andar assim pelo tempo dos outros, é como se estivesse em arrumações pelo meu. Por isso, gosto tanto de almoçar só e de me proporcionar estes prazeres, verdadeiros calmantes e estetizantes das horas seguintes, verdadeiras fontes de riqueza, seja no plano das emoções, seja no rendimento material das acções que diariamente me estão incumbidas.
A ambiência europeia do período compreendido entre as duas guerras é um dos meus cenários preferidos, seja no plano das artes, da proliferação das ideias, seja numa certa plasticidade urbana e vivência interior.
Às vezes, sinto-me como uma espécie de personagem a preto e branco a ouvir música que já nem o meu pai ouvia e a comover-me com coisas que só o meu avô era capaz de se ter comovido.
O quadro de Chagall, «Por cima da cidade», é para mim uma relíquia interior sem tempo, diria mais, é uma atitude que pratico diariamente naquilo que hoje parece rarear mas que não dispenso, o ser-se um todo em tudo. Quero dizer, não deixar a profissão à porta do amor, não deixar o amor à porta da política, não deixar a política à porta da arte, ainda que só por dentro, ainda que tudo pareça diferente na sua expressão materializada, ainda que seja apenas nas emoções essenciais, as que tudo mudam e tudo criam.


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