Elogio da loucura.

pintura de Abram Arkhipov - 1897
Impressionante, o facto de ser o espírito, muitas vezes, a ver mais do que os próprios olhos. Hoje, de manhã, as árvores do Largo estavam com tons de Outono, contrariando a imagem que delas tinha na tarde de ontem. A lição que se tira é a do sentido, o que se sente é tantas vezes mais real do que a própria realidade, aí se alojando as raízes de quase tudo, da beleza e do medo, da ousadia e da fraqueza, do rasgo e da imanência.
Sentir o mundo, à medida que vamos envelhecendo, é uma faculdade que se sobrepõe ao que os olhos vêem, que é o mesmo que dizer que o factual se submete ao interpretado, que o recriado se submete ao que é bruto, que o objectivo tende a dissipar-se e a dar lugar a uma espécie de ninho que fazemos a todo custo pela nossa passagem pelo chão das coisas e das emoções.
- É verdade que as emoções têm um chão, um chão suportado na desconfiança da lava que nas profundezas nunca se sabe quando entrará em ebulição, na desconfiança do céu que tantas vezes emudece, na leveza da terra quando dela nascem as nossas flores mais diáras, na lonjura do vento quando trás de outro chão o aroma da diferença. É verdade que as emoções também têm um chão, caso contrário onde nos poderíamos enterrar assim que acordamos para o que de mais real o dia guarda?


Comentários
Olha: estou a experimentar usar das palavras num modo mais narrativo, quem sabe, como se ensaiasse algo mais. Dá uma espreitadela.
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