Hotéis e solidão.

Lembro-me do velho Hotel da Curia. De por ali andar com o meu avô e com os primos brasileiros. Das gaivotas que ali são pequenos barcos a pedal que deslizam sobre o lago. Os Hotéis que tinham compotas de damasco e de morango e um café de saco muito diferente do nosso. Todos os hotéis têm cafés de diferente sabor. Lembro-me de tudo e isso é uma fortuna.
Nesse tempo importava muito o que se dizia e a forma como se dizia. Não havia lugar para impulsos básicos ou para a gala desmedida de um calão disfarçado de génio. Nesse tempo, tínhamos um peso correcto sobre os ombros, o peso justo dos outros e da sua liberdade. É certo que havia outros pesos e outras pesadas circunstâncias. Mas não em nossa casa.
Agradava-me a antipatia que se cultivava pelo mau génio e pelo o sábio ditado que «os nervos se curam com um pau» ou «até os doidos se educam». Agradava-me e nem sequer adivinhava que, neste tempo, iria encontrar tanta gente disfarçada de nervosa e tanto "doido" apresentado como génio. Em ambos os casos prevalece o egoísmo, o hedonismo e o egocentrismo. Sobre ambos deixo recair uma pesada indiferença e assumido afastamento. Sem lástima.
Lembro-me de tudo desse tempo e assumo as saudades, assim como essa forma tão intima de conservar o mundo. Talvez a pobreza seja isso, não ter memória alguma de alguém por quem gastámos algum tempo com o amor, com a privação ou com o desejo.
Talvez a pobreza não seja estar impedido de conhecer esses velhos hotéis, mas antes o não ter quebrado de vez o espelho que apenas reflecte uma só pessoa, ainda que nesse ambiente ou na mais velha favela. Disso não me queixo, graças a muitos e a esta minha feroz militância em olhar os passos em volta e a eles pertencer e a eles sempre me dar.


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