Bilhete.

Olha como passa o teu tempo. Como não agarras as coisas com a intempestiva distorção de antigamente. Olha como se morre na face do mundo e se é tão feliz por isso, por todo esse milagre.
Não argumentes. Sabes bem que um argumento é sempre algo que fica aquém de um poema. Para piorar as coisas Deus quis que andasses pelo mundo a confrontar poemas e argumentos, aí descobrindo o único espaço para edificar o que quer que inventes sobre a felicidade.
Olha como passa o teu tempo e como daí se inventou todo o amor e toda a saudade. Olha como em volta tudo tem o timbre das campânulas e dos automóveis, das árvores e dos prédios, dos corpos e da sua inevitável partida.
Olha. Olha mas não vejas, imagina. Isso te basta. Isso é o suficiente que Deus te deu para que vivas, e pior, muito pior, para que faças feliz quem te rodeia.


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