Madrugada de sempre.

Como há muitos anos, inicío a manhã na sessão comemorativa da Câmara de Fafe, saudando a bandeira dessa pátria livre e limpa, lembrando a meninice e o tempo em que éramos muitos mais, em que ainda estavam vivos grande parte dos que deram força e sentido ao que se comemora.
As manhãs de cada 25 de Abril a abrirem no meu peito a imprescindível madrugada, a mais poética e profunda marca que a História do meu país deixou ao mundo.
Nunca como neste dia, sinto Portugal tão grande e tão universal. Nunca como nesta manhã recomeço tudo e tenho a ingénua e generosa vontade de tudo poder melhorar.
Não há, para mim, data na História dos Homens que tenha alcançado tão elevado grau de liberdade, de alegria e de essencialidade partilhada.
Se me pedissem para definir a poesia, bastaria apontar para os sorrisos que nas praças de Lisboa se espalharam, bastaria mostrar Salgueiro Maia, o eterno capitão, o eterno sonho, porque imaculado, porque fiel, porque direito e puro ao coração dos Homens que ainda virão.
Se me pedissem para definir a poesia, abriria uma janela sobre o meu país acabado de nascer, sabendo bem do doce veneno aí contido, do destinado amor, do irredutível ímpeto pelo que move e moverá a humanidade que importa, que perdura e que seguirá.
Quando abro essa janela sobre o meu país acabado de nascer e que é da poesia o seu corpo, comovo-me, comovo-me sempre, por ter a noção clara de quanto riqueza reside naqueles que com tal visão e tal entendimento foram bafejados.

Comentários

A comoção é a 'substância' preferida para quem fala do 25 de Abril. Eu próprio não consigo falar «dele» no «seu» dia sem um nó a atar-me os dedos e a fazer-me solavancar. Apago-lhe sempre as velas depois de lhe cantar o seu «parabéns a você» que o Zeca lhe deu, imagino os meus pais nesse dia, sobretudo, o meu pai, a sair do trabalho antes de ir para a guerra, o chão a desovar caminhos atrás de caminhos, outros, do chão a sair, como tochas, preenchendo procissões de cravos 'mariquinhas'. Lembro-me de três cassetes lá em casa tocarem até coçar durante o dia, do «parabéns a você» genuíno e último do coliseu que a gravação deixara ali para mim, lembro-me do meu pai se rir a imaginar o vizinho fascista, ex. pide, do primeiro esquerdo a roer-se todo, como se o nós - do primeiro direito - morássemos no Carmo e o Sr. do lado na António Maria Cardoso. Por isso, acredito que deva ser duro começar o 25 como se fosse o 24, apesar das intenções, boas bem sei. Peço desculpa pelo alongamento (isto é quase um estiramento!), deixo-lhe um abraço.
Anónimo disse…
Obrigado pelo comentário. Há sempre um sinal de crescimento quando nos deparamos com a perda ou com a mudança. Em ambos nunca se deixa um rasto de inexistência, mas antes de uma outra existência, sendo essa a riqueza da vida.
Abraço
Pompeu

Mensagens populares