Desembarque interior.



Desembarcar num porto. Ser o estrangeiro com o mundo às costas e um passado a confrontar a cada segundo. Ter do espaço a noção da evidência do que é novo, com o medo e o fascínio que sempre se associam. Não ter a quem deixar palavras, rastos, primeiras impressões.
Invadir a cidade a partir desse porto de desembarque. Perguntar pelo tesouro que se traz para a troca com o que aparecer ou com o que faltar.
Começar por ouvir as canções que se não sabem, depois as ruas, a seguir as casas. Parar, perguntar de novo. Desta vez sobre a distância a que se está do que se conhece. Escutar essa distãncia e conhecer melhor o que é próximo e que não existia. É esse o milagre da vida, a capacidade de se acrescentarem inexistências.
Desembarcar. Ser o estrangeiro e a seguir tomar cada pedaço e torná-lo distante, mas por dentro, distante para que signifique, distante para que seja o que se não tinha, para que seja o cais de uma próxima vez e não uma pergunta.
Desembarcar para haver mais chão e mais distância e ser estrangeiro e estranho como convém ao que se pretende que não envelheça, que se não transforme, que assim fique como só ao intangível é permitido.

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