Pierre Aderne
Esta noite regressei a Pierre Aderne, num jantar a dois no terraço. Não há artista que nos conheça tão bem como ele. Sabe tudo sobre a saudade do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil. É uma simbiose como nunca conheci ninguém. O país das multidões ainda não o descobriu. A Rua das Pretas é um projeto magnífico, mas que ficou pela cidade atenta. A televisão mostrou-o. Mas não é para ver na TV. É para ouvir palavra a palavra, nota a nota. E quando damos conta está lá tudo. O que eu gostaria de ter mostrado ao Prof Eduardo Lourenço esta obra. Aposto que escreveria e se demoraria a ouvi-la, pois são estas as palavras e estes os sons que nos ligam e nos fazem universo imenso.
O álbum Mapa dos Rios deveria ser de audição obrigatório nas escolas e nas universidades. Aquele álbum diz praticamente tudo sobre o nosso tempo e o ser de cá e de lá. Um encontro sem preço entre Pierre Aderne e o velho sambista Moacyr Luz. Querem acabar o poema magistral de Vinicius sobre a saudade do Brasil em Portugal? Ouçam este álbum. Ouçam-no até o saberem de cor. Vivam-no, namorem com ele, entristeçam com ele, ressuscitem-se nele.
O Pierre Aderne é uma benção que aqui nos veio parar e faz mundo connosco e leva o nosso Portugal que importa ao coração do universo. Que maneira tão bela de menosprezar fascistas! As canções dele já fizeram mais pelo Portugal de todos os tempos do que essa gente que tem medo de ser português a sério, inteiro, livre, muito livre, de abraço e de acolhimento e que quer ser com o resto do mundo e que quer fazer com o resto do mundo.
Vou ouvir o Pierre Aderne até morrer.



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