O POÇO DA MOÇARADA
Durante a minha adolescência, e em dias de calor como o de hoje, frequentava o poço da moçarada. Um refúgio que tinha tudo o que um lugar medianamente conhecido deveria ter: água límpida, funda o suficiente para um mergulho, um bonito arvoredo e uns campos de milho por perto onde roubávamos uma ou duas maçarocas para assar e comermos com manteiga ali mesmo.
O significado do lugar era quase tudo. Nunca se soube em minha casa que eu para lá ia. Só na idade adulta o descobriram, por saudosa confissão minha. Pelo caminho apanhava amoras, apenas as que queria comer, sem que importasse muito o pó e o estarem sob o calor do sol da tarde.
Íamos lá para conversar, para rir e para termos uma espécie de paraíso que mais do que quase privado era secreto. Claro que era um secretismo muito relativo, pois a rapaziada sabia bem como lá chegar. Eu ia sempre nos dias de semana e nunca la me encontrei com mais de três ou quatro pessoas chegadas antes de nós. A maior parte das vezes só estava o nosso pequeno grupo de amigos. Também poucos mais caberiam.
O poço da moçarada era uma ilha na forma como decidíamos cercar o tempo. Nunca mais la voltei. Em dias como o de hoje, tenho a certeza de que era uma ilha, cercada de mistério e do que nunca quisemos que o tempo deixasse de cercar: o sentirmos que aquela alegria e aquele risco bom poderiam ser a regra para o resto dos nossos dias. De alguma forma assim tem sido, apesar da distância, apesar de não ter voltado, talvez por ter guardado quase tudo e ter podido seguir sem que o esquecesse.



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