A VIGÍLIA DA CAPELA DO RATO

 


A Capela do Rato é um monumento da nossa liberdade. Um grupo de católicos progressistas manifestara-se ali contra a guerra colonial portuguesa, numa ação que ficou conhecida pela vigília da Capela do Rato. 

Entre discussões sobre a temática da guerra e da ausência de liberdade, a vigília iniciou-se a 30 de dezembro de 1972, estando prevista a sua continuidade por tempo indeterminado. No 31 de dezembro, a polícia de choque invadiu a igreja e deteve cerca de 50 pessoas. 

Os objectivos desta ação foram sintetizados em comunicado: «1. Romper com o silêncio acerca do problema da guerra em Angola, Moçambique e Guiné. Procurar a paz. 2. Declarar solidariedade com as vítimas da guerra».

Entre os organizadores estavam Nuno Teotónio Pereira, José Luís Galamba de Oliveira, Maria Benedita Galamba de Oliveira, Francisco Pereira de Moura, Homero Cardoso, Luís Moita, Manuel Coelho Carvalho, João Cruz Morais Camacho, João da Fonseca Quá, Francisco Louçã, Hermenegildo José Carmo Lavrador, Jorge Wemans, João Pimentel e Miguel Teotónio Pereira.

Deste grupo conheci e fui aluno, na disciplina de Relações internacionais, do Professor Luis Moita. Um homem de um pensamento sóbrio e robusto nos princípios que deveriam orientar a liberdade e a democracia em Portugal e no mundo. 

O Professor Luís Moita partiu em 2023. Quando por ali passo, às vezes entrando, faço uma silenciosa e sentida oração de gratidão. Gratidão pela coragem daquele grupo, gratidão pelo exemplo que nos legaram, demonstrando que a inteligência se sobrepõe ao ruído, que a luta pela humanidade se deve fazer em todos os lugares, a qualquer hora, e que a Igreja, a verdadeira assembleia de cristãos, tem na sua génese a defesa da paz, do amor ao próximo e da solidariedade como sentimento que, como tanto nos disse Jorge Sampaio, não é facultativo. 

Parece uma história antiga. Mas não o é. A sua urgência continua a mesma. Que cada um, à medida dos seus possíveis e impossíveis, faça a sua parte. Os cristãos estão comprometidos com isso, para darem verdade ao que dominicalmente celebram em eucaristia. Estes cristãos da vigília da Capela do Rato são disso um límpido testemunho. Que assim seja entre crentes e não crentes, pois a paz no mundo não é discursiva. A sua ausência mata. E sempre que mata, mata-nos.

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